“Fox” é um personagem…

Ah vamos parando por aí! Josias revirou suas fichas na mesa e retirou o boneco que representava seu personagem. Ele usava um boné para trás e seus enormes óculos redondos ampliavam as pintinhas em seu rosto. Os outros dois garotos que estavam à mesa ficaram se olhando confusos. O que é que foi agora cara? Paolo perguntou. Ele tinha pinta de jogador de basquete, uns 10 centímetros mais alto que seus amigos e aquele jeito gingado para falar. Era o dono da casa, o dono do tabuleiro e das peças também. Só não era dono de todos os dados, cada um dos garotos tinha o seu conjunto devidamente guardado em sacos de tecido como se fossem aqueles que os andarilhos medievais deviam usar para carregar suas coisas ou mesmo ouro. MJ ajeitou o cabelo escorrido que se dividia ao meio, colocando um outro pedaço do sanduíche que a mãe de Paolo havia preparado para a jogatina deles. Não está certo caras! Isso está virando uma aventura romântica! Os moleques riram. É sério! Já meio enfezado Josias devolveu seu personagem a mesa. “Fox Mãos Ligeiras” merece mais respeito. Participou de diversas aventuras, roubou tesouros de piratas e reis, saqueou o Cálice da Vida que era vigiado por nada mais nada menos que a lenda monstruosa, o Dragão Azul. E agora está apaixonado por uma princesa que se chama “Macia”? Aliás que raio de nome é esse MJ? Nessa história você está muito doido, colocando nomes “bobos” nos personagens fazendo a aventura ser um tanto chata não acha? O garoto havia terminado de comer o lanche todo e limpava sua boca na manga da camisa. Ah cara, não pira. Discutimos sobre isso antes de começarmos essa campanha. havíamos tido muitas aventuras, conquistado muitos tesouros e objetos sagrados, decidimos que precisava de humor lembra? Que estávamos sempre nessa de um plano de roubo aqui, de um esquema para sabotar uma guerra ali, enfrentando bestas mágicas e monstros afins. Acho que colocar uma guerra entre os reinos e a Princesa Macia ser o mote faz o jogo ficar diferente, e legal para mim! Paolo balançou a cabeça concordando e puxou o boné da cabeça de Josias ajeitando na sua. Fico mais legal com ele que você! Deu uma risada. Me devolve isso aqui! E puxou o boné de volta. Caras, você comanda um cavaleiro altruísta, forte e corajoso. MJ você é o mestre e tem esse personagem que protege a Princesa com segundas intenções, Sir. Althus Baishignon. Querem mesmo ter uma aventura em que o melhor personagem do jogo fica de nhém nhém com uma garota! Nessa idade ainda haviam garotos que não queriam saber de garotas, e vice-versa, ou ao menos fingiam não notá-las. Só no jogo diziam, quando usavam uma personagem feminina para ser salva. Paolo e MJ caíram na risada. Cara, “Fox” é legal mas não é o melhor personagem do jogo mesmo. O meu é muito mais legal. Paolo comandava um Lizard conhecido como Barrel, uma espécie de homem lagarto, tipo um bárbaro escamoso e muito mas muito forte mesmo. Já havia participado de algumas aventuras e mesmo sendo inimigo dos humanos havia se juntado a um outro bárbaro no estilo viking de barbas trançadas e longas, de nome Ravnar Longaxe e uma elfa rebelde, fugida de sua tribo e estudiosa das magias ocultas conhecida apenas como Noturna.

Os 3 ficaram discutindo durante horas sobre como a história poderiam prosseguir e tentavam fazer Josias entender a graça de jogarem uma aventura mais leve, depois de tantos combates ameaçadores para seus personagens. Eles estão em um nível bem alto agora, podemos fazer uma aventura mais simples, apenas para testar suas novas habilidades e depois voltamos a fazer uma aventura mais complicada. Disse Paolo, e hoje também minha vó vem me visitar, vai trazer uns doces deliciosos e portanto não poderemos jogar até muito tarde. Completou dando um gole no refrigerante que já estava sem gás.

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“Fox Mãos Ligeiras” era um ladino nível 8. A despeito de ser da espécie Humana, tinha aprendido habilidades únicas de furtividade e de confundir os adversários fazendo-os brigar entre si. Se movia como um gato, silencioso e paciente, porém quando era necessário tinha uma boa agilidade tanto para escalar lugares complicados, escapar de tumultos e achar excelentes esconderijos. Apesar de sua índole, era um bom “chapa” como alguns o chamavam, pois ajudava sempre os desprovidos, fazendo pequenos serviços e doando parte de seus espólios. Não era muito forte, portanto evitava o combate corpo a corpo, sendo afoito a fugir de brigas que não lhe convinham. Encontrou com Barrel no final da tarde, aquela nuance com o início da noite, tons roxos e laranjas no céu. O homem-lagarto era difamado como “lagartixa” no início dessa empreitada. Para chegar ao nível 7 em que estava, foram duas guerras entre nações e uma entre espécies tribais. Tinha virado um “dinossauro”! Era muito forte, dez vezes mais que um humano mediano como ele já tinha sido para sua espécie. Agora Barrel estava muito grande e metia medo só pela sua presença e claro, aparência desagradável com aquela pele escamosa e babada com tons que variavam entre verde e marron. E ninguém entendeu ainda como se juntaram a pequena e valente Elfa. Noturna estava no nível 8 e isso para um de sua espécie tão jovem ainda é um complicador. Ela conhece muito dos feitiços, porém ainda não domina o suficiente para executar certas bruxarias. Conseguia controlar alguns, e em outros ela quase “botava a casa abaixo”. Era razoavelmente forte, e como os de sua raça possuia os cinco sentidos humanos muito mais aguçados, e mais uma espécie de sentido sensorial que conectava esses seres com elementais da natureza. Os mais velhos eram conhecidos por sua sabedoria incontestável, e Noturna ia pelo mesmo caminho, pois adorava aprender, conhecer e viver as experiências que a fuga de sua tribo havia lhe permitido. Esses três juntos viveram dezenas de aventuras, algumas que chegaram a durar meses. A mais famosa e que fez os três serem reconhecidos em vários mundos pelo feito inacreditável e para muitos, suicidas, conseguiram o Ovo do Dragão Azul. O famoso Cálice da Vida que segundo a lenda dará vida a um filhote que chegará a ser a maior chaga que nasceu no mundo de “Under the Dreams”, nome dado por Paolo e MJ para o lugar onde aconteciam as aventuras.

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E ao chegar em casa, MJ cumprimentou os pais e foi direto para o quarto subindo as escadas de madeira que davam acesso ao corredor do andar de cima. Passou antes no banheiro, e depois entrando no quarto pulou na cadeira Presidente em frente o laptop e abriu a tela. Puxou no Wordtext um arquivo que continha 83 páginas, todas escritas sem nenhuma ilustração ou qualquer tipo de rabisco. Somente letras, muitas delas. Ele estava escrevendo a aventura maior, o que definiria seu mundo como um jogo oficial. O garoto tinha o sonho de publicar seu arquivo. Precisava dar um tempo e por isso criou aquela história água com açúcar, que poderia ser bem legal se Josias não fosse um trapalhão. A Princesa Macia iria ser o “cálice” dessa história. Tudo bem que não estava inspirado para os nomes, mas sabia que uma hora eles viriam e deixariam a coisa toda muito mais legal. Ela entraria para o jogo para salvar seu reino e unir todos com a derrocada do Duque Doce. Também iria trocar o nome do vilão. Estava tudo planejado e escrito no “Manual DO JOGO DE RPG “UNDER THE DREAMS” – VOLUME 1″, escrito em caixa alta na primeira página e no cabeçalho de cada folha até o final do documento.

Valores – Primeira Parte

 Para lembrar e aprender a dar valor ao alimento, ao tempo e a vida…

Existem diversas maneiras de se aprender contra o desperdício absurdo proposto pela sociedade de classe média burguesa com seus falantes sem atitudes. Aconteceram tantos episódios e era um tema muito recorrente, por que ele viu muitas pessoas tendo certos jeitos, que não sabia se teria coragem de fazer para ter alimento, e também aprendeu um montão com isso, desde como você realmente pode escolher suas frutas, verduras e legumes, até você saber “o que” daquele aspecto podre pode tirar de bom, e incrível, tira muita coisa! Ele detestava esse papo de sofrer pra aprender ou nos erros aprende mais, blá blá… Acreditava nas escolhas, e por mais que algumas deem merda, ele garantia que quando a gente escolhe se está pensando em um resultado positivo.

Essa história começa tarde da noite já num posto de gasolina desses de beira de estrada. Era bem madrugada acho que umas 2 horas. O lugar era bem grande, um pátio para caminhões esperando os monstros chegarem, e 2 funcionários e mais um “vigia” estavam no local. Quando perguntou se poderia acampar ali para tentar uma carona, o frentista lhe ofereceu um café, e um lugar para guardar a mochila, por que ali havia muito assalto e não dava para saber o que poderia ocorrer, sendo que na esquina era uma boca. De tempos em tempos passava um sujeito bêbado, falava qualquer coisa e ia embora. Foi uma noite relativamente tranquila, o lance era despistar o sono e a fome que vinha chegando tão lenta quanto essa carona confirmou ser. No meio da madrugada não conseguiu dormir, não achava lugar ou posição que o deixassem seguro, mas percebeu algo que achou engraçado, não tinha desconfiança nos frentistas do posto, muito pelo contrário. E além de amizade e palavras consoladoras de um deles que era devoto evangélico, ou pelo menos assim ele deveria achar que com aquela ladainha fazia uma boa ação, volte para jesus e doe sua cruz. Então desencanou da mochila, e como eles disseram mesmo, se esse lugar tem tanto assalto, “que me levem tudo” pensou, “já que não tenho nada comigo mesmo”. Era só a roupa do corpo, e o cara da cachaça veio. Estava muito louco e não controlava a fala. No entanto durante umas 2 horas de conversa, a gentileza dele lhe oferecer a comida pois o que ele queria era dinheiro pra cachaça. A marmita tinha frango assado, arroz e feijão preto (coisa de carioca). Contou da história da mãe, de quando estava preso e que havia entrado para a igreja e iria se converter para tomar um rumo na vida, trabalharia de pedreiro para começar, fazendo as paredes da própria casa.

A humildade vem junto, mas bem juntinho dos valores, aqueles que são morais e sociais, que nos diferenciam dos animais selvagens, e dos pets. Somos humanos por que em teoria sabemos discernir as atitudes boas das ruins.

Não é para pagar de gatão não, mas falamos mais do que agimos e acreditamos estar fazendo algo bom doando 20 reais pelo telefone para alguma associação, ONG ou afim. Ninguém dá as caras, vai lá ver como é e doa a grana para pelo menos, já que somos seres de natureza egoísta, sabermos quem são as pessoas que vão lidar com o “suado” dinheiro de fim de mês. A porrada é forte pra caramba, então você percebe que tem pouquíssimo tempo na real, que sei lá, se chegar aos 85, acho massa, mas não é nem um século, perto do que você lê ou ouve falar, de bilhões e bilhões de tantas bilhões de coisas por ai, e só temos isso de tempo pra curtir a porra toda e tá todo mundo, sei lá, enlouquecido? Chamaram ele de hippie, bandido e pobre… Caleja saca, você sente uma casca crescendo e você tá pronto pra se defender. Veja bem, com tanta gente pirada, o mínimo que se pode fazer num mundo louco como esse nosso é se proteger de alguma forma, não necessariamente pensando que vai ter de usar alguma arma ou algo assim, e torce pra que nunca mesmo, apesar que nunca também é uma medida de tempo, aquele que não entendemos e usamos com tanto desperdício…

Ah cara, no dia seguinte ele estava de pé bem cedo já tentando a carona na beira do acostamento de novo. Havia tomado um outro café, os frentistas, todos eles, cada um que voltava da cozinha, lhe trazia água ou café. Foi uma coisa especial, você pensa no dia a dia, nas correrias, nas negações das pessoas com aquelas que falamos que somos amigos. Complicado isso.

Passou 18 horas tentando carona sem nenhum sucesso. Alguns caminhoneiros que descansavam ali suas máquinas aproximavam para pegar água, e um ou outro puxava uma conversa e ele respondia na tentativa de conseguir alguém que o levasse dali. Apenas dois em dezenas falou que iriam ver alguma coisa. Mas não prometiam nada. Depois de uma quentinha paga pelos frentistas, passou a noite com as provocações do vigia que cheirava aquele pó nojento. E lhe infernizava falando que ele não poderia dormir aqui ou ali, quando um dos frentistas tinha dito até para ir tomar uma chuveirada. Poder de portaria de condomínio burguês, igual aos dados para os governantes. Outro valor, outro desperdício, mais um aprendizado de tempo. Ficar 3 dias sem banho e tomar um mesmo que gelado é mágico. A sensação de prazer iguala ao banho de cachoeira pela alegria que você sente no fundo da pele se limpando.

No outro dia ficou esperando aquele caminhoneiro que havia lhe prometido carona, apenas um no final das contas foi lá falar com ele. E as 10 horas da manhã estava em um trem indo em direção a capital paulista tentando entender as atitudes mesquinhas dos caminhoneiros (passou uns dias com raiva deles) e abençoando os frentistas e loucos de posto de gasolina de estrada.