Um Conto de Terror Infantil…

E então encontramos aquela garota ruiva que deveria ter por volta de seus doze anos, usando um vestido esfarrapado e sujo, com o olhar paralisado após ter corrido um montão por dentro daquela floresta espessa e melindrosa… ela estava parada de frente para um despenhadeiro, um filete de água caia formando uma cachoeira enorme, ela não tinha noção de que tamanho era aquele fiosinho prateado, a não ser que era muito muito longo para si… segurava a barra do vestido e respirava ofegante olhando lá para baixo… atrás de si pedras protuberantes, árvores avantajadas, e o som silencioso da natureza…

Enquanto tentava focar seus olhos para ver o fundo ou onde aquele cordão de água caia, em suas memórias estavam os mais entranhos pensamentos, lembranças agitadas de como ela havia chegado ali, por que ela estava com aquele ar apavorado; somente ela poderia nos contar, caso conseguisse falar com sua boca aberta, que não se mexia, não batia os dentes… apenas ofegava… no escuro de sua mente viu olhos grandes, garras terríveis, um barulho infernal de algo arranhando o metálico, mas onde estaria o ferro ela pensou, se estava no meio de um nada verdejante e úmido… e de novo tudo ficou escuro, e ela viu os olhos longos, afilando um brilho intenso e anuviado… e ouviu um miado agudo… minhéééuuuuu… uuu… uuu… seria um gato fantasma…

A adrenalina deixa o corpo com os sentidos alertas, porém imaginem a seguinte cena, é a primeira vez que você está perdido na vida, isto é, numa idade de crescimento da infância pra adolescência, aquela confusão natural que essa época carrega, em um lugar que nunca esteve, e completamente sozinho, sem adultos ou outros quaisquer que sejam… sem estar acostumado com aqueles sons e cheiros… o pânico cresce… será? a mente prega peças e acabamos vendo coisas que não existem… será? o barulho da mata aumentava, era como uma corrida, algo vinha rápido, e o miado continuava confundindo mais e mais a mente da jovenzinha…

O quarto parágrafo era raro e quando acontecia significava que o nosso querido camarada estava tentando algo diferente de novo… a vontade de escrever um romance, uma aventura engraçada e inspiradora, dessas que prendem o leitor do início ao fim, e que cria-se uma identidade tão grande com os personagens que falamos deles como se fossem pessoas do nosso mundo material… chamamos pelo nome, contamos as eventualidades deles, e pensamos no que pode vir a acontecer caso ele descida isso ou aquilo dentro da história… o miado o despertou, ele olhou para trás e lá estava sua garotinha brincando com o filhote de gato…

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Sonhando…

Agora sim aquele nosso camarada conseguiu sossegar a mente para poder desenvolver uma nova ideia… encontrava-se sentado no tapete felpudo de uma sala que tinha o formato quadrangular… luzes baixas e pesadas cortinas deixavam o ambiente sinistro e confortante… havia alguns livros espalhados ao seu lado, e uma taça pela metade de um vinho qualquer… ouvia-se uma música bem baixinho, algum tipo de instrumento de metal, não sei direito… o que você quer contar com suas histórias… sobre o que está escrevendo… criando…

Havia um lugar impossível de existir, pelo menos é o que ele imaginava aqui neste planeta… as cores, os contornos, as aparências das coisas que eram vistas, eram reconhecíveis, e ele usava um manto branco que lhe cobria o corpo inteiro, suas formas aparecendo em nuances do tecido macio… era uma enorme rocha flutuante, num formato triangular de cabeça para baixo!? árvores cobriam toda a parte superior desenhando com as montanhas paraísos encantadores… apertou seus olhos para visualizar uma cachoeira caindo em um azul com pontinhos brilhantes em uma piscina natural que desaguava no… nada… ele correu em direção de tudo aquilo… não estava sedento, não era pela “miragem”, mas a sensação da água gélida no corpo quando se mergulha em um poço cristalino junto do calor matinal… a pele se aquecendo aos poucos, arrepios percorrendo as células excitadas por estarem vivas e respondendo a respiração ofegante e alegre dos pulmões… vivo!

Acordou com um baque surdo e sentiu o corpo caindo em um escuro infinito… para todos os lados, somente a negritude, e o corpo leve, vinha “surfando” o ar… primeiro de costas, depois de frente… movimentos borboleteantes de ir e vir, bolhas de corzinhas luminosas, sorrisos gigantescos e o cheiro delicioso do alho fritando, vinha de onde? eu estava dentro da cabeça dele, ou ele que estava dentro do… além!

Não havia medo, nem apreensão… e sim alívio… será isso a morte? qualquer coisa que você sentiu, se o nome é alegria, se a barriga esfria, e os olhos se enchem como o próprio coração… de lágrimas de satisfação… e entender que são momentos, e que nesses momentos é que reside o clichê e a pieguice, as sensações pequeninas e carinhosas… isso é o que chamamos de amor, ou é a paixão de adolescente… cores de rosas, cheiros de flores, sabor de água límpida no pote de barro conhecido como moringa… e então… dormiu!

Paralelas…

Estavam lá aqueles dois camaradas sentados na beira do mar e conversavam sobre essas relações bizarras que o dia a dia nos trazia… um disse “… cara, o idiota que cercou um pedaço de terra ferrou a vida de todo o mundo…” e o outro emendou “…a partir dai, amor, felicidade, e até mesmo a paz estão sendo comercializadas com o nome de verduras orgânicas, carros hibridos e experiências de viagens…” cairam na risada, terminaram de fumar a planta da conectividade e foram nadar… antes, deixaram chinelos e um isqueiro e correram para a água… a sensação deliciosa que o gélido azul trás quando se relaxa, deitando sobre a espuma branca das ondas, deixando o movimento de vai e vem balançar o corpo como em um berço, e os barulhinhos diminutos que estalavam nos ouvidos, contando as histórias de amor das pedras e dos ouriços. De olhos fechados, ele abriu os braços e pensou na quantidade de vida que existia naqueles sons… viu cores brilhantes arrepiarem seus poros, sorriu como criança ao afundar o corpo e trocar olhares com peixes, polvos e estrelas do mar… ao subir de novo sentindo a água escorrer pelos ombros, olhou em volta quase trezentos e sessenta graus, e aqueles prédios enormes pareciam distantes, como em um quadro pintado sobre as montanhas verdes e marrons… um deles voltou a falar “… cara, é viver na paralela, achar as coisas que se gosta de fazer, e fazer…” o outro, que é um músico espetacular, só pode rir com tal afirmação e completou “… vamos fumar mais um e ir para a rua tocar, hoje faremos um pouco mais do que o capitalismo quer, e depois podemos voltar a viver a vida de verdade…” e mergulhou na ternura azul do dia…

Simulador…

As lembranças são algo engraçado, até quando se está vivendo um momento suave… notas, lembrando também que cada um tem sua própria interpretação para o que é suave… sentido na pele, e sentindo os raios matinais ebulecerem a mente e arrepiando corpos humanos que estavam lagarteando pelas areias praianas de qualquer litoral paradisíaco, e olha, tem tantos que eles já conheceram e outros tantos para se conhecer que uma só vida é muito pouco para esse jogo…