Saudades de te amar…

Esse é curtinho e fala sobre amor,
desejo constante de te encontrar,
vontade enorme de ouvir suas histórias,
sentir seu cheiro e seu sabor.
Matar as saudades,
e te abraçar,
Sentir a maciez de seu corpo no meu,
compartilhar tempos e sorrisos,
ficar quietinho em seu abraço,
e depois de fechar os olhos,
ir embora sabendo que esses momentos
foram dos melhores que fizeram valer
a minha ingênua existência.

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Castelos e Contratos

Não quero me casar com ele papai! A Princesa Macia estava furiosa e andava de um lado para o outro tentando convencer o Rei de que ainda não estava preparada para se casar. Ainda mais com um primo! Ele é asqueroso! Ela disse inconformada. O Reino de Pedras Valiosas passava por algumas dificuldades, tinha esse nome por estar em uma terra abastada de muito minério, mas havia pouca vegetação e quase nenhuma fonte de água pura. Eles tinham acordo com alguns reinos vizinhos e trocavam seus valiosos bens entre si, inclusive para manter a paz entre os mesmos. E esses negócios eram feitos há quase 4 gerações, em que os reis prometiam seus filhos e filhas uns para os outros, com os interesses comuns. Princesa Macia era pretendida do Duque do Rio Doce, primo de 3º grau, o que levaria a uma união mais forte e estável entre esses dois reinos até então, fazendo as Pedras Valiosas e o Rio Doce se tornarem a maior e a mais sólida potência para ser desafiada por outros domínios adjuntos ou por hordas de bárbaros.

O Rei era complacente com sua filha, mas a Rainha não queria saber de nenhuma desculpa dela. Você irá completar 18 anos e de acordo com nossos tratados deve-se casar com o Duque. Isso será bom para mim, para seu pai e todo o reino! Ela disse de forma severa. Só pensam em seus interesses, não se importam com meus sentimentos! E a Princesa saiu brava do grande salão dos tronos. Depois de um longo suspiro o Rei disse a Rainha que deveriam pegar mais leve com a garota, e que poderiam tentar um novo acordo com o Duque. A Rainha preocupada roeu as unhas e disse que nem imaginava se o Duque quisesse quebrar o pacto entre eles. Ficariam sem o acesso facilitado de uma boa fonte de água potável. Era o Rio Vermelho que circundava por trás do Reino do Rio Doce há pelo menos 3 dias de viagem de Pedras Valiosas. Para proteger o lugar, os bisavós do Duque construíram uma grande muralha que seguia serpenteando a parte acessível do rio, e com guardas armados com flechas, protegiam o lugar de intrusos e possíveis ladrões. Como suas terras eram abastadas de água, conseguiu os melhores acordos pelas melhores jóias. Não tinham ferreiros tão competentes como os de Pedras Valiosas também, então recebiam armas, armaduras e alguns objetos e ferramentas que utilizavam na construção e melhorias de seu próprio império. Sendo assim os monarcas de Rio Doce acabaram se tornando os mais poderosos de toda região, e os donos de Pedras Valiosas seguiam a risca todos os contratos, pois mais valioso que ouro é água, e o jovem Duque já sabia bem disso.

***

Rato estava revirando uma pequena moita com um graveto quando viu na beirada de um charco uma linda donzela. Olhou para Fox e disse: Chegue aqui “Romeu“. Veja quem está sozinha logo ali no atoleiro. Ele não pode acreditar e não conteve o sorriso. Não sei se é sorte ou azar, mas preciso ir lá falar com ela. Rato torceu o nariz e aconselhou seu amigo a não fazer nenhuma besteira. Ela está longe de casa Rato. São pelo menos umas 2 horas de caminhada até o castelo das Pedras Laranjas. A grande estrutura toda dourada era cravada de minerais valiosos e destacava-se ao longe pelo brilho intenso quando o sol refletia sua luz. De onde estavam era como ver uma estrela pulsante e era a casa de Princesa Macia.

Vossa Alteza! Ele aproximou-se tirando a touca da cabeça e ajeitando os cabelos salientes. Oh, você me assustou! Ela se levantou e ajeitou o vestido que estava enrolado na altura dos joelhos. Desculpe, não foi minha intenção. Deu um passo para trás para deixá-la mais confiante. Quem é esse? Ela apontou para o sujeito com o nariz adunco e dentes proeminentes. Ah, esse é Rato. É um amigo… Primo! Cortou o rapaz. Somos primos, Fox não admite mas somos da mesma família. A linhagem é antiga e… Ah tá, tá! Fox cortou a fala do outro e deu um sorriso sem jeito. Isso não importa para ela Rato. Somos o que somos, mas e você, está um tanto longe de sua casa não majestade? Falou com um tom de sarcasmo na voz. Ela apertou os olhos percebendo isso e não gostou nada. E o que tem? São as terras do meu Reino, posso andar por onde eu quiser. Ela disse de forma atrevida. Uhhh temos uma garota valente aqui! Rato deu uma risada. Pare com isso! Fox irritado apontou o dedo para Rato. Não há nada demais Princesa, porém, você está me reconhecendo? Ele olhou com duvidas para ela. Após alguns segundos ela abaixou o rosto, passando um dedo sobre o lábio inferior. Levantou a cabeça furiosa e foi para cima de Fox, dando socos em seu peito. Claro que me lembro de você seu descarado. Você… você me roubou um beijo! E ficou vermelha de vergonha. Meu primeiro beijo, ela quase sussurrou. Ele a segurou evitando os golpes e os dois ficaram com seus rostos muito próximos. Estou apaixonado por você Princesa Macia. Ele olhou fundo nos olhos dela. Planejei roubar um beijo como uma aposta de que seus homens não têm competência para lhe proteger, mas com isso, você também me roubou! Ela olhou para ele curiosa, sem entender direito aquela situação. O que você está dizendo, plebeu? Desdenhou de Fox puxando o braço e tentando se afastar dele. Ao fazer isso tropeçou e antes de cair o atento garoto conseguiu segurá-la. Rato deu um sorriso de canto e pode ver corações saírem dos olhos dos dois apaixonados.

Enquanto isso no Reino Doce, o Duque estava furioso em saber que a Princesa não queria se casar com ele. Ela não me quer, não deseja ser a maior Rainha de todos os domínios conhecidos pelos homens. E quebrou uma corrente de pedrinhas brilhantes que puxou de um grande cálice que havia sobre um aparador. Olhou para um sujeito alto de olhos marcados e a pele pálida que usava uma roupa pomposa. Eu preciso de um plano. Preciso convencê-la de que sou o melhor pretendente da sua mão. Sou um cavaleiro Sir Barr, o melhor de todos! Bradou em alto e bom som. O sujeito passou as mãos em sua roupa e concordou. É sim senhor Duque Doce. E fez um gesto de reverência. Então vai me ajudar a convencer aquela garota. Seus pais já deram o aval, eles precisam de nossa água, não vão querer prejudicar todo o reino de Pedras Valiosas, e como sua única filha, aceitaram sem muita relutância meu pedido. O problema que dentro de todo nosso continente ela é a única filha, a única mulher com idade para ser a minha consorte. Por isso tenho que tê-la, para unir os reinos, para nos fazer a maior monarquia de todas. Você vai me ajudar, arrume um esquema e te prometo o Ministério do Tesouro. O camarada apertou os olhos imaginando a quantidade de riqueza que teria controle, e em tudo que poderia ter com aquele poder. Considere essa missão cumprida Duque. Irei me apresentar como eclesiástico e farei os pais assinarem um documento que lhe irá conferir autoridade sobre a Princesa Macia. O Duque Doce abriu um sorriso maquiavélico e Sir Barr saiu para seus aposentos.

De volta ao pântano, Fox e Princesa Macia trocavam beijos e golpes. Como posso convencê-la de meu amor, Princesa? Ele perguntava segurando suas mãos e puxando-a para mais perto. Recebia um tapa no rosto e ganhava um beijo ardente. Não podemos, você é um plebeu! Ela escapulia de novo. Serei seu pobre peão, farei tudo o que você me mandar, te protegerei de todo mal. Ela dava risadas. Você já é meu vassalo. Mora em meu reino, deve fazer minhas vontades. E voltou a rir. Ele torceu o nariz contrariado e a retrucou. Sou livre minha Princesa. Eu durmo onde quero, faço o que quero e quando quero. Mas por você, eu largaria toda minha liberdade. Ela olhou espantada por aquela revelação, porém não quis dar esperanças a ele. Eu estou prometida, não posso quebrar o contrato! Ele a soltou sem entender o que aquilo significava e ela ficou olhando para ele com olhos tristes e gentis. Sinto muito. Se aproximou e deu um beijo bem devagar em seu rosto. Não podemos ficar juntos, no entanto, pelo menos mais uma vez eu quero vê-lo! Se desvencilhou dos braços dele e saiu correndo pelos arbustos sumindo da vista do jovem apaixonado. Ele se sentou na grama suspirando. Ahhh Rato! Colocou a mão no peito. Eu sei, eu sei, estou aqui para escutar toda ladainha. E sentou-se ao lado de Fox. Os dois sujeitos trocaram risadas e encararam ao longe o brilho mágico daquele castelo.

Questione-se

_Por que tô fazendo tudo isso?”…

Usa a mente em pausa, não deixa ela mentir, te enganar que você está passando por isso por conta de algo que você nem imagina um por que… Já pensou que nem mesmo seu nome foi escolha sua, que porra é essa que querem que acreditemos que isso tem algum significado ou não… Não tem mesmo! Números que se igualam a letras e decifram enigmas que são montados por seres humanos a que motivo, para que, como fomos escolher isso ao invés daquilo?! E o mais hipócrita é imaginar que as coisas não tem haver com as outras, que tudo está separado, por rótulos, títulos, marcas, que não são nada, o real não tem nenhum significado, a não ser o pessoal, o valor que foi imposto socialmente e que foi conduzido pela própria massa cega… Fazemos, compramos, seguimos, o que quer que quem seja nos obriga a fazer… Ouvi dizer que um cachorro nao segue a noção de tempo, ele só dorme, brinca, corre, come, caga, faz o que faz um cachorro, no tempo de um cachorro, ou seja sem preocupação com dias, horas, o calendário… E depois que morre, não acaba por que ele viveu o que tinha que ter vivido e vou te falar, muito felizes do ponto de vista social capitalista criado por burgueses da classe media…

E dai a pergunta, Você vive a “sua” vida?! Ou a expectativa para outros? Você é de verdade, ou vive de aparência?! Ninguém sabe a fórmula mas pode ter certeza, pelas histórias e notícias que vemos, pela bizarra colocação que só aprendemos com erros e sofrimentos, pela forma conformada que se aceita isso; dá pra ser bom sim, dá pra ser só de coisas boas, experiências ricas, é só escolher diferente, sair da tal zona de conforto, parar de viver nos seriados da Netflix, Globo e Youtube, e ir para a rua para ver o que tá acontecendo, se questionar, olhar para todos os lugares e pessoas e perceber que ninguém tá perguntando por que, só tão simplesmente “vivendo” falando de sobreviver ao invés de agir mesmo… Vai doer, mas depois da dor, eu te prometo, é só prazer!

Na Ilha das Bruxas-Sereias

Existia uma leve brisa no ar quando Buk acordou. Ele sentiu uma pontada forte na cabeça e tinha escoriações por todo o corpo. Estava deitado com o rosto sobre algumas pedrinhas dentro de uma “caverna” de onde podia-se ver a praia. Sentia-se zonzo e sua visão inteira estava turva. Lançou as mãos no rosto e ficou aliviado de sentir seus preciosos óculos. Ufa! E agora onde estou? Procurou a sua volta e não viu o navio do Principal Comando da Nação e nenhum dos tripulantes muito menos o Capitão. Onde estarão todos? O jovem se pôs em pé e sentiu uma explosão forte na mente e suas memórias vieram à tona. Recordou do momento exato do ataque e de quando a bruxa-sereia havia impedido a sua morte. Não encoste nele! Ela gritou para uma outra que era maior e mais encorpada, mas que não reagiu, apenas deu um guincho como uma fera amarga. Depois olhou dentro dos olhos dele e passou a língua na ponta de seu nariz. Você é meu! E com um sorriso maligno pulou de volta para o mar puxando o braço de Buk, que sem resistência apenas gritou desesperado que não sabia mergulhar.

Debaixo d’água ele viu aquele monstro fazer seu primeiro truque para mantê-lo vivo. A sereia soprou uma bolha que que foi crescendo até cobrir a cabeça dele. Então podia respirar na água como os peixes e ela aumentou o puxão deixando os dois bem próximos. Agarrou-o pela cintura e afundou a toda velocidade. Muito metros abaixo e ele não conseguiu mais distinguir as próximas cenas, como se milhões de bolhinhas invadissem seus olhos. Assim ele percebeu que estava sem a proteção da bolha e ficou desesperado. Começou a engasgar e a tossir água e já não podia sentir nada, seu cérebro foi apagando e ele foi desligando.

Ela está aqui! Buk ficou aflito e seu corpo ficou alerta. A barriga também doía, ele não tinha ideia se havia quebrado algum osso, mas as dores nos músculos pinchavam e ele podia sentir a cada momento em um lugar do corpo. Não havia nada que pudesse pegar para se defender a não ser algumas pedras. Não vou atirar pedras nela, vai ser ridículo! Ele pensou na cena e balançou a cabeça. Também não tinha nada que pudesse carregar como provisão, estava apenas com a roupa do corpo e não usava mais sapatos. É não vai ser fácil, mas preciso sair dessa! Cabaleante ele deu uma volta pela caverna, não vou me aprofundar, vai que elas estão escondidas ai dentro, ou se tem algum monstro pior. Vou dar o fora daqui! Falando sozinho Buk se arrastou até a praia lutando contra seu corpo, ele estava bastante fraco. Caiu na beira mar apoiando sobre as mãos. Fechou um punhado de areia numa delas e buscou lá no fundo do peito um grito choroso e angustiado.

Olhando para trás viu a abertura da caverna, era ampla e não parecia tão profunda. Notou que a ilha também não parecia grande, toda entrecortada com poucas árvores saindo das pedras, essas sim grandes e de diversos formatos, criando um relevo que parecia ter difícil acesso. Será que alguém sobreviveu? Ele se indagou pensando nos tripulantes e no capitão do navio de novo. Tinha sorte de estar vivo ainda. Depois de presenciar um segundo ataque, ele podia-se dizer um cara afortunado em certas circunstâncias. Outra vez de pé resolveu dar uma volta pela ilha, precisava achar comida, água e um jeito de sair dali.

Não havia nenhum destroço de navio pela praia, e ao longe ouvia o barulho de pássaros. Caminhou por um tempo até ver uma ilhota feita somente de pedras a uns 100 metros para dentro do mar. Dá para ir a pé até lá, ele pensou quando reparou que havia alguém sentado em uma pedra mais escarpada. Parecia estar penteando os cabelos e não se via abaixo do quadril. Uma mulher, sozinha! Admirado ele correu gritando e agitando seus braços quando percebeu que aquela não era uma mulher qualquer, e dai foi tarde demais. Ela virou-se e deu um largo sorriso.

Finalmente você acordou. Por sua causa fiz muitas loucuras meu menino. Segurou o rosto dele entre as mãos. Ele estava paralisado pela beleza dela, sem nenhuma expressão no rosto. Apenas impressionado. Ela falava sem parar, contando para ele todo o caso até então. Por que não me matou? Entre risadas ela disse que ele não serviria de comida pois era muito magrelo, não serviria como escravo para seus apetites carnais pois notava-se que não tinha experiência alguma com mulheres, e também não seria um “protetor” muito útil, não tinha tamanho e não parecia ter força suficiente para um combate. Você é um bibelô, ela disse. Vou te guardar para mim, até você crescer e eu poder me utilizar de seu corpo. Horrorizado ele indagou, mas vocês não devoram os homens? Mais risadas e ela explicou mais alguns detalhes do ataque. Nem sempre comemos, sabemos que vocês nos podem nos ser pertinentes de outras maneiras também.

No entanto meu jovem bibelô, eu briguei com as minhas irmãs por sua causa. Serena queria abrir sua barriga e engolir suas entranhas. Mathilde queria usar seu cérebro nas nossas poções mágicas. Não pude deixar isso acontecer, consegui convencê-las de sua importância aos nossos planos. Eu quero você para ser meu escravo, você irá atrair outros homens para nós. Não podemos nos colocar em mais perigo, os seus nos caçaram  tanto e nossa espécie precisa se recuperar. Não concebemos normalmente, precisamos da semente do macho de sua espécie para gerar nossas crias híbridas. Os de nossa espécie são como peixes selvagens e só servem para uma boa contenda. Não queremos filhos peixes! Ela terminou sua explanação e Buk estava atordoado com tudo aquilo.

Um segundo grito é viver num filme…

“Sem se importar” deveria ser sua própria regra cara! Põe pra fora suas preocupações e suas lamúrias diárias, e depois de desopilar tudo, perceba, é com você mesmo. Tudo aquilo que você condena e está em uma grande batalha para se fazer melhorar como ser humano aqui e agora.

As histórias passadas, as experiências adquiridas, todo um conhecimento para saber como se portar em convívio social, independente de qualquer variável que tenha. Ir além da apatia e do conformismo e entendendo seus limites físicos e mentais, tendo também então mais entendimento com o que se pode ou não fazer e aceitar. Sempre socialmente falando. E daí que vem as regras, as leis que você segue sem questionar ou sem procurar entender tantos porquês. E não questionar é irritante, mesmo!

Pelo cinema essa questão é tão clara e subjugada que todo mundo acha o máximo o super-herói salvar o mundo ou o casal que brigou o filme inteiro, mas que foram felizes ficando juntos no final. Sabendo que jamais irão viver tais aventuras, vivem nas idealizações hollywoodianas, de tudo ser sempre perfeito, no entanto, é sempre no futuro, nunca no agora. Um futuro que é igual para todos, conheço pessoas que compram seus jazigos bem antes de morrer.

Aliás chega-se aqui ao ponto que me perturba muito, pois vejo que me atrapalha buscar por respostas claras. Por mais ideias que existam por ai, não existe um consenso comprovado do que é “viver a vida”. Acordar com alarmes, sair cedo para trabalhar, trabalhar em algo que nem sabe se gosta, ou pior, que se faz de forma mecânica. Comer no automático, ir ao banheiro da mesma forma. Comprar coisas que não se usa, principalmente roupas, e olhar pra um armário lotado e escolher sempre o mesmo “uniforme”. Utilizar um transporte público que não funciona direito e ai sim você pode dizer que “sobreviveu a uma peripécia” em sua vida, afinal com tantos acidentes e problemas nas ruas, usar o carro ou o metrô em cidades grandes é quase comparável ao trajeto do Frodo em O Senhor dos Anéis. E ao voltarmos pra casa, nos jogamos no sofá em frente a TV e sumimos. Não tem boa noite, não tem afagos de amores, não tem uma janta feita com carinho. É bem triste e não conseguimos definir “vida”. Parabéns as ovelhinhas!

Basicão #1

Desde a infância brincava com bonecos feitos de papel. Inventava mil jogos, montava times inteiros de futebol e voleibol. Criava personagens de luta-livre como aqueles em que eu assistia na TV, e carros de corrida para sonhar que um dia poderia correr como o Senna! Também produzia monstros diferentes, animais selvagens e super heróis coloridos, tudo só com uma folha de papel, canetinha e tesoura. Passava horas e horas elaborando as histórias e tinha um baú cheio de papéis cortados nos mais variados formatos. Eu gosto muito de origami, mas o papercraft me empolga mais, pensar em que tipo de geometria tem que fazer para encaixar as peças e montar um castelo, uma montanha, uma baleia.

A partir dessa ideia criei para vocês o “Basicão #1”, para que possam pirar a vontade dentro de uma peça retangular simples. Se for inventivo dá pra ter acessórios, variar nos formatos de pés e mãos, colocar orelhinhas e com um cubo menor até um focinho! Vai da imaginação de cada um, cortem, montem e divirtam-se! =)

Na Estrada…

Não é a questão de “gostar” de ser vagabundo. Acredito que minha mãe não teria orgulho de ver seu único filho homem ser um escroque, um andarilho pedinte pela vida. Também vivemos tempos bem diferentes daqueles em que vagabundos eram glamourizados em livros e filmes, com suas histórias de aventuras, de viagens clandestinas em trens por paisagens bucólicas, de mendicância pelos bairros burgueses das cidades grandes. Fora as suas próprias condutas morais, consigo, dentro de sua cabeça, um lugar que não pode fugir ou se esconder, então terá que enfrentar a vergonha, a humilhação, a desconfiança e a avareza das pessoas. E descobre aos poucos que quem mais ajuda o outro, que segue aquelas palavras religiosas de compaixão e caridade, são os pobres, os que na maioria das vezes não tem nem para si próprio, contudo repartem de bom coração aquela pouca comida guardada em marmitas de isopor.

Independe das escolhas, a instituição já engoliu o ser humano, é mais forte e brilha como um pote de ouro no fim do arco-íris. A ilusão de que todos poderão tocar aquele tesouro, possuir coisas, supondo que isso seja a razão do sucesso de alguns, fazem esse sistema encher sua barriga de sentimentos falsos, de pessoas que passam por cima das outras pelos bens que possuem, colocando o ser humano numa escala perto da barata, um ser rastejante e nojento, sem apreço nenhum de ninguém. Algo ambíguo, pois tanto um mendigo quanto um milionário podem cruzar olhares e por suas histórias, suas personalidades, descobrem que são da mesma espécie, sendo que a barata rica, simplesmente atropela a barata pobre e segue seu caminho cego pela materialidade das coisas.

A opção por não querer trabalhar na rotina e viver uma vida mais “leve”, sem as obrigações que foram impostas por essa sociedade, levam a tantos caminhos possíveis como para quem estudou e se formou advogado por exemplo. O problema é o preconceito e a falta de compaixão, em ouvir e crer nos eventos que seriam fantásticos demais, caso não pudessem ser comprovados. No meu exemplo era difícil fazer as pessoas entenderem minhas escolhas presentes e que eu já havia sido um professor “coxinha” na capital paulista. E as pessoas te olham perguntando “por que largou uma carreira teoricamente estável, uma mulher linda e amável, bens materiais que muitos batalham a vida para ter”, para se tornar um mendigo louco, um andarilho que fala sozinho e resmunga para os lados balançando a cabeça e os braços.

Muitos me vêem assim, outros como um cara que largou tudo e agora é “hippie” (em pleno século XXI, não tenho nem tempo pra isso, com todo respeito a esse movimento de contracultura), outros me vêem ainda como aquele que fui a quase 5 anos atrás, esse professor em uma grande faculdade, com valores que hoje para mim são deturpados. Eu seguia a massa como a maioria faz. De bom mesmo sobrou a vontade de trocar, de lecionar, de pesquisar e continuar aprendendo. Desde então não exerci uma profissão assinada pela constituição nacional. Gosto de ser artista, de produzir meu próprio trabalho, todavia detesto a pressão de ter que provar o tempo inteiro que sou bom nisso ou naquilo, competir o tempo inteiro e subir ao topo de um rank que é tão falso quanto o “feliz natal” nas noites de 24 de dezembro.

E apesar de não ter o glamour do passado, de tempos mais pesados e mais preconceituosos, ainda assim prefiro sair pra rua e curtir uma praia sem saber qual a aventura do dia, do que estar lá dentro daquele escritório trancado debaixo de um ar gelado como os olhares das pessoas, criando coisas que são inúteis, e que apoiam outras criações inuteis, fazendo todos acreditarem que necessitam daquilo para serem melhores e mais felizes. Sinto muito, não precisam não, apesar da escolha ser pessoal, uma coisa que aprendi nesses tempos de “vagabundagem”, é que independente de onde nascemos e como vivemos, iremos para o mesmo lugar do mendigo louco e teremos que dormir eternamente do lado de pessoas que você tem tanto preconceito hoje.