Abdução

Era esse lugar que mais parecia um gigantesco espelho… feito de água. Qual era a sensação de olhar aquela imensidão azul com uma faixa verde desenhando linhas gráficas como as de um electroencefalograma… Ou montanhas. A sensação era de paz total. E o cheiro de mato lembrava algumas essências de incensos indianos. Já os reflexos tinham vida, se moviam, deformavam as imagens da realidade. às vezes a saudade era um sentimento que pegava, mesmo não querendo ou tentando não pensar, certos movimentos lembram das coisas, e quando as coisas são intensas e boas, mesmo que durem como um relâmpago, formam cicatrizes vivas como as águas azuis do espelho de céu. Esse mesmo céu, quando à noite, espiralava em estrelas, formando desenhos de pontos brilhantes sobre tons escuros. Um turbilhão formava sobre as nossas cabeças e confesso que o efeito era meio sufocante, de sentir que existe algo além, e que é tão grande que poderia nos esmagar como formigas. Em outros momentos girava tudo tão rápido que entravamos em um vórtex de delírios, cada um tinha sua própria viagem, em lugares maravilhosos, com uma natureza vívida, outros iam além das estrelas, para outras constelações e quem sabe até outros universos. Eram experiências sentidas e presenciais, de emoções fortes e carregadas de gargalhadas, choros, abraços, sentimentos soltos e desgovernados, todos os átomos rodopiando para todos os lados e direções.

Em um instante o céu se pintou de amarelos e rosas, nuvens se sobrepunham em camadas de fofura, e tudo isso ainda se refletia na água. Estava amanhecendo preguiçosamente no meio do nada, um lugar só de natureza aberta. Uma luz mais forte surgiu no horizonte. Um ponto circular com uma cauda fina, poderia ser um cometa. A questão é que não se movia. Estava estático no ar. E brilhando muito. Ele pensou que ser abduzido nesse momento não seria nada ruim. Havia vivido bastante coisas e sabia que podia ter mais um tantão por vir, só que aquela convicção anterior se flexionava, não queria ter certas responsabilidades e pelas escolhas tinha que assumir as consequências como qualquer um. Do ponto de vista de outros personagens, ele era meio nômade, que não curtia se fixar. Na real muito pelo contrário, se fixou muitas vezes, criou muitos laços, estava de bem com isso também. Tinha muita gente amiga. E ainda assim ser levado para um passeio em um ufo seria algo surreal demais de viver e poder contar essa história.

A grande nave pousou lentamente sem emitir nenhum som. Suas luzes estavam inertes e ele pensou ter se visto saindo de lá, com um sorriso plácido e um sentimento carinhoso pelos seres que ali deveriam estar, mas que ele não conseguia ver pelos olhos físicos de nós humanos. Aquele ato de piscar por milésimos de um segundo e perder o movimento, foi essa impressão que ele teve daquele ponto. Ele viu toda a história que aconteceu com ele, porém com a nítida certeza de que não era ele, ele mesmo.

Autor: pericles

Uma pessoa apaixonada por artes em todos seus âmbitos, um artista, um professor, um escritor entusiasta desenhando com letras! =)

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