Mundo Paralelo

Havia uma semana que ele não usava nenhum tipo de entorpecente que o fizesse suportar viver em seu mundo. Ele sabia que quando estava “louco”, assim eram as pessoas que o rotulavam pelo uso continuo da erva santa, era mais fácil. O famoso “easy going”, deixando a vida levar. Porém não estava assim, e podia sentir seu corpo evaporar essa loucura, os poros latejando, a mente utópica sonhando com aquele mundo melhor. Um lugar onde só aconteciam coisas boas, um ambiente de paz e amor literal, porém sem a necessidade de ser algo “hippie”. Não era sobre o capitalismo ter colocado os humanos uns contra os outros, era mais sobre como viverem em harmonia, cada um com suas escolhas e aceitando isso, as consequências das mesmas. Então se você ligasse a televisão, aquele aparelho que nos dias de hoje era antigo, ou até a moderna internet que se podia acessar de qualquer eletrodoméstico, só chegavam notícias boas. Pessoas que criavam formas novas de uma convivência pacífica e abastada, cada um tendo o que estava afim de ter, sem prejudicar o próximo por nenhum motivo. Nesse mundo fantasioso, ele tinha um relacionamento lindo com ela. Uma mulher inteligente, elegante sem ser piegas, forte, e totalmente interessada por ele. Trocas e mais trocas, um devotado ao outro, procurando saber de seus momentos como indivíduos, mutuando experiências quaisquer que fossem, se desejando como dois jovens adolescentes entusiasmados pelos cheiros e sabores daquele seu parceiro. Enfim, tudo muito mágico, muito perfeito. Nesse mundo também as pessoas compartilhavam seus conhecimentos sem se preocuparem com o status do “isso é meu”, ou “eu que inventei” ou “sugeri”. Ele pensava nisso e gostaria de sorrir, mas seus olhos pulsavam e ele só conseguia visualizar a palavra “foda-se”.

Saiu naquele dia de sol torrente, decidindo caminhar pelas ruas de uma cidade cheia de prédios de concreto e sem cor. Isso era bem difícil, ainda mais sem a tal “loucura” na mente. No entanto fazia por que precisava sentir-se mais do que tudo o que o rodeava. Não tinha um fone de ouvido para ouvir música, então forçou-se a cantar, ouvindo dentro da mente os sons que mais lhe agradavam para facilitar aquele ideia insana de uma interação humana. Andou por horas a fio, sem parar em nenhum lugar específico ou encontrar alguém com quem pudesse conversar numa boa. Apenas via a correria da cidade, as buzinas entusiasmadas das motos que cortavam os carros em um trânsito espremido, as pessoas batendo seus sapatos de um lado para o outro, alguns fumando cigarros, outros ajeitando os óculos escuros, uns carregando pastas pretas de forma apressada, sempre apressadas. Ouviu uma pessoa reclamar sorrindo da correria da vida, que tinha que ir atender um cliente longe, e depois mais outro, e outro, e mesmo assim, reclamando fazia aquilo e ele de verdade não conseguia mais compreender. Estando louco as coisas pouco importavam, era mais fácil ignorar o caos e “viajar” para uma praia dentro de sua cabeça.

Decidiu na volta então entrar naquela pequena sorveteria de bairro. Ali, escolhendo com muito cuidado a combinação dos sabores, (algo que junto de um amigo criaram o método perfeito para combinar o doce, com o cítrico, com claro, o sabor apurado do chocolate). Havia notado aquela garota de cabelos pretos e lisos, cílios enormes e boca marcada por um baton vermelho sentada atrás do caixa. Ele se dirigiu à balança e colocou o pote em cima, com chocolate puro, limão siciliano e tangerina. Conversaram bem rápido e ele percebeu que ela era a mulher do outro mundo, aquele em sua insana moleira. Aquela que em sua mente trocava com ele prazeres, experiências, vontades, de um gosto mútuo. Ela comentou com um leve sorriso sobre a combinação dele e ele lhe explicou muito lúcido como se fosse uma experiência científica de altíssima importância aquele arranjo. Trocaram olhares, ele sentiu ela atravessar sua alma, novamente sorrindo, deixou ele paralisado pela beleza que o fez esquecer momentaneamente o sorvete. Já ia saindo quando se virou para trás, e a cabeça sóbria percebeu que tudo não se passara de uma bela viagem astral. Pegou o sorvete de volta e despediu-se dela jogando aquela energia para o universo e agradecendo esses pequenos momentos em que vivia em um mundo alucinado demais para ficar sempre sóbrio. “Até mais”, ela lhe lançou uma piscadela.

Autor: pericles

Uma pessoa apaixonada por artes em todos seus âmbitos, um artista, um professor, um escritor entusiasta desenhando com letras! =)

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