Dupla em Ataque – Parte 1

Já haviam se passado vinte anos desde o fatídico ataque que transformou a vida do jovem Buk “Quatro Olhos”, e agora ele era um homem adulto e com uma existência dupla. De dia trabalhava em sua pequena loja de penhores, na baía da Ilha Margarida. Ficava do outro lado do continente, longe da confusão das cidades e da capital da Grande Nação. Evitava inclusive esses assuntos, tentando apagar da memória e abstendo-se como podia de sua conexão com o Capitão e seus comandados. Conhecia as pessoas de todo o vilarejo, e procurava não enviar para as águas essas pessoas que ele considerava direitas com os valores de família e sociedade. Porém não media esforços e com uma ajuda sobrenatural, se é que podemos dizer assim das lendas, obtinha uma força incomum para arrastar os malfeitores para as águas turbulentas a pedido de sua senhora.

Ele cresceu muito e atingiu 1,90m tornando-se um sujeito de aspecto magrelo e desajeitado. Os óculos eram os mesmos e deixavam seus olhos diminutos atrás das lentes grossas. Havia se conformado durante um tempo com o que ele acreditava ser uma maldição. Contudo o tempo é sábio e acalma as pessoas. Buk não se arriscava sem necessidade e cumpria a risca os desejos de sua mestre. Até então não havia tido nenhum problema maior com os desaparecimentos dos homens do batalhão, toda vez que surgia uma inspeção em sua aldeia, apenas um ou dois guardas faziam as rondas, recolhiam os impostos, e ao se encontrarem com Buk, não voltavam mais para a Capital. Intrigado com esses desaparecimentos aparentemente sem solução, o Capitão resolveu reunir alguns homens de seu conselho para determinar qual era a melhor medida a tomar. Ele desconfiava totalmente de Buk, mas não haviam provas, nada que o amarrassem diretamente aos sumiços. E sua vida comunitária conhecendo todos os habitantes por ali, uns até diziam que Buk era um homem resoluto e educado. Porém o Capitão sabia, ele havia encontrado Buk quando jovem, naqueles tempos sombrios, e percebeu que algo mudara durante todos esses anos. Como um franguinho como aquele poderia viver tanto e tão bem, enquanto seus corajosos homens sumiam sem deixar vestígios? E as sereias, eram mesmo reais, eram mesmo bruxas? Ele se tornara um sujeito obcecado por isso, estudou e pesquisou, promoveu mais incursões mar adentro para sempre voltar sem nenhuma resposta, e quase sempre sem seus melhores marujos.

Àquela noite ele sabia, haveria outro ataque, mais um dos seus iria desaparecer para sempre, e ele precisava, sentia isso na veia, ele queria acabar com os monstros e por consequência, com aquele sujeito que ele passou a odiar mais que o medo da própria morte, o até então desajustado Buk “Quatro Olhos”. Fez um plano que colocaria a própria vida em risco, acobertado por alguns dos sujeitos do governo, conseguiu armas e dinheiro suficiente para montar um pequeno bando, de seis homens apenas, no entanto eram os piores sujeitos que haviam nascido na terra. Malfeitores, bandidos, larápios imundos sem o menor pudor de cometer seus crimes hediondos. Ele os comprou, todos se tornaram mercenários e sua única missão era capturar Buk em ação e acabar com a festa de sangue das bruxas-sereias.

Pediu então, no dia seguinte a um de seus guardas que fosse até o pequeno vilarejo da Ilha Margarida cobrar os impostos e fazer as devidas inspeções. Buk sabia que isso aconteceria e sua conexão com Serena o fez se preparar também. Segundo a ordem dela, que era clara e direta, enrole o sujeito com seu papo, leve-o até a beira mar e deixe o resto comigo. O grande poder dela era sua voz, quando ela falava deixava o sujeito paralisado pela beleza, e se ela cantava, nesse caso, deixava-o em transe total. Buk havia feito isso pelo menos uma vez a cada ano desde então, e naquele dia não seria diferente. Esperaria o homem chegar, ofereceria com hospitalidade um bom gole de conhaque, mostraria alguns dos lindos objetos recuperados do fundo do oceano, e até poderia dar uma lembrança para agraciar mais ainda o camarada. E com um papo acalentador levaria-o caminhando lento e tranquilo até o mar, onde Serena o seduziria e o levaria para seu destino final.

Autor: pericles

Uma pessoa apaixonada por artes em todos seus âmbitos, um artista, um professor, um escritor entusiasta desenhando com letras! =)

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