Cinema Multidimensional

Imagina um lugar onde tudo brilha em tons cintilantes de azuis, e dá para perceber flores, e uma certa natureza em volta. Talvez aquilo fosse o reluzir da água, ou eram as estrelas no céu, porém teve a impressão de ver mais alguma coisa. Tem lendas que dá para saber que em épocas criativas, pessoas usavam potencializadores e se conectavam mais fácil com seu ambiente. Uns dizem que isso é coisa de hippie, ou até mesmo bruxas. Ele deu risadas. A sombra se moveu e o que ele viu lembrava um gato misturado com uma raposa, no entanto muito grande. E haviam aqueles três olhos hipnotizantes que pareciam pulsar. Dois deles poderia-se dizer que eram “normais”, mas o terceiro era como uma folha centralizada na testa. Supõe-se que quando crianças, pensando que as histórias parecem ser sempre para uma classe média burguesa aristocrática, todos lemos os contos de fantasias e seus monstros, e de certa forma, alguns deles parecem criar feitio no mundo dos adultos.

Ela tinha os cabelos azuis como aquele quadro do primeiro parágrafo. Estava sentada em um muro de tijolos vermelhos e velhos. Um gato preto balançava a calda de um lado para outro posicionado atrás dela. Cena montada, vamos a ação. Vocês sabiam que alguns filhotes de gatos já nascem com uma marca genética para serem mais agressivos e desde novos já se defendem abrindo as garras e mostrando os dentes finos como pequenas agulhas. O problema dela era que esse bicho era muito grande mesmo, e lembrava mais uma alongada raposa. Esse ser veio galopando com seus pés leves até bem próximo de onde ela estava. Nem ela nem seu bichano se moveram até aquele instante. O fulgor que surgiu no céu possuía um formato de um pássaro com penas extravagantes. Em mundos mágicos, que não há limites para o que se existe, os ingredientes estão todos aí, é ter ideias boas para as misturas de seus sabores, e depois se deliciar. Ninguém sabe ao certo, se bruxas foram reais, ou sereias são animais catalogados pela criptozoologia, contudo com pessoas especiais como aquela mulher, em tempos assim, era melhor que tudo estivesse bem tranquilo, céu calmo e passivo.

“Cara, aquilo é de verdade mesmo?!” Ela piscou os olhos algumas vezes. Levantou a manga da camisa e deu uma esfregada neles para ver se melhorava o foco da vista. Melhorou. Apesar de sentir aquilo molhado. Eram dois animais parecendo cavalos. Eram bem estranhos por que o que identificava sua forma era um contorno branco que cintilava fraquinho, e seu corpo estava escuro como o breu noturno em noites desérticas. Um deles tinha um par de chifres e os pelos, como crinas e os da calda, pareciam vivos, mudando a forma como uma massa geleiosa. Sua barriga possuía uma cor vibrante e isso deu a impressão que era uma fêmea e seu cônjuge. A noite chegava escura saindo das asas de um dragão, que ao invés de escamas, lhe brilhavam as estrelas de vários formatos e tamanhos. O barqueiro passou e viu toda essa paisagem e gritou para a garota, que saiu de seu estado de torpor, mostrando-nos que o muro em que estava sentada era parte continua de uma pequena ponte de pedras que atravessava o negrume de um rio.

Ele havia encostado seu corpo em um poste e o clarão atraia os insetos alados. Pequenos monstros cheios de olhos, braços e pernas que voavam para o calor da luz e para sua morte. Percebeu após acender o santo graal que a garota não estava mais lá. O lume de seu cabelo não estava em lugar nenhum, e seu pequeno e negro acompanhante havia sumido juntos. Não queria sair da claridade, sentia-se seguro… Contudo, o que é o “estar seguro” a cada vez que você tem que tirar forças sabe se lá de onde para sair da cama e fazer seu dia ser um bom dia. Os dois tiveram milhões de histórias na cabeça. Tiveram ideias e manifestações diversas sobre a mesma situação, em algum momento, eles sequer podiam imaginar como, já que a vida só seguia, e ele já havia tentado contatos antes, sem nenhum sucesso ou com pouca receptividade por parte dela. No entanto agora estavam ligados, haviam trocado seus fluidos, misturado suas essências, se tornaram dois inteiros melhores ainda por se permitirem trocar essa experiência.

Ele sentiu um cheiro delicioso, e sabia o que aquilo significava. Os cabelos dela pareciam as descomplicadas massas disformes criando apenas um sonífero de percepções, e ao mesmo tempo, uma amplitude como se quando se ouve uma música e o som da guitarra está ali, junto com uma bateria e um contra baixo, porém dá para distinguir cada um deles separadamente, nos ouvidos e na mente. Dentro da cabeça. O cheiro dela lembrou “vontade”, seguido de perto de prazer mútuo e alegria de compartilhar. Ele saiu da luz e foi ao encontro daquele aroma suave. Deu voltas em seu próprio corpo e não sabia de onde vinha. Aprofundou-se na luz e aquela raposa enorme, com uma maliciosa calda e uma maneira felina de se movimentar, surgiu farejando com força a origem da cobiça. Ela abanou a calda, era uma gata preta dos olhos prateados. Seu acompanhante não gostou muito daquilo porém entendeu que momentos são momentos, escolhas são escolhas, e se retirou de forma muito digna. Ela pulou sobre ele e unhas e mordidas de provocação rolaram de um jeito muito bom.

Quando ele acordou no dia seguinte, memórias, somente elas estariam ao seu lado como que uma escolha difícil de entender que uma vez que nascemos, o momento é nosso, e com a morte, tão igual ou mais forte. Os insetos queimavam nas lâmpadas pelos postes das ruas afora. Os gatos berravam como bebês e as televisões gritavam suas notícias horrorosas para apavorar os despercebidos dos perigos da noite. Enquanto ele continuava caminhando, perseguia aquele cheiro que ela estava emanando em uma febre verde por toda sua pele. Estava tudo escuro mais uma vez. E não se dava conta se estava vivendo uma fantasia ou uma realidade…

Autor: pericles

Uma pessoa apaixonada por artes em todos seus âmbitos, um artista, um professor, um escritor entusiasta desenhando com letras! =)

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