Marionete

Era mais um dia como outro qualquer. Fez um sol de rachar os ossos da cabeça pela manhã, porém durante a passagem foi ficando mais ameno, e ao final da tarde, com o céu coberto de nuvens roxas e lilás, o sol se pôs atrás daquelas montanhas de pedra e Buk sabia que elas estavam lá ao longe, só lhe observando. E como ele poderia saber de tal coisa, foi a pergunta que o Capitão lhe fez repetidas vezes e o garoto só conseguia ouvir aquele som bem baixinho dentro da sua cabeça. Ele acordou como em qualquer outro dia, teve um café da manhã proveitoso, coisa que não era muito comum e após uma breve entrevista forçada pelo oficial, foi deixado em sua cela. Porém não ficou lá por muito tempo, além de atacar o guarda que estava com as chaves do Quinto Quartel, Buk não sabia como seu corpo agia da forma que agia, no entanto não tinha mais domínio sobre suas mãos, braços, pernas e pés. Ele ouvia alguma coisa que não sabia o que era, no entanto obedecia e conseguiu executar movimentos dançantes para acabar com boa parte da tropa do Capitão e ainda sair ileso.

Apesar de ele gritar que não era ele quem estava fazendo aquilo, não soube explicar para o Capitão o que aconteceu, seu corpo simplesmente parou e desfaleceu. Ao acordar no outro dia, a coisa se repetiu até que se viu só, nenhum guarda, nenhum oficial, nenhum faxineiro ou cozinheiro, ninguém mais estava de pé, pois Buk havia acabado com todos eles pelas ordens de sua mestra Serena, a bruxa-sereia. Ela queria vingança contra o jovem grumete, mas ao invés de acabar com sua vida, decidiu que ele faria uma bagunça no mundo dos homens.

E assim estava feito, agora na praia sentado com um galho em uma mão, desenhava qualquer coisa na areia, abraçando os joelhos com a outra mão. Se sentia triste, pois viu nos olhos do Capitão uma maldade humana, talvez tão ruim quanto a que tinha visto quando as bruxas atacaram os barcos em que estava por duas vezes. Mas maldades de homens davam mais medo por que era ali que ele vivia, naquele meio, com pessoas que aproveitavam umas das outras, de uma forma muito mesquinha. E elas, as bruxas em teoria, eram alucinações, não deveriam existir, portanto de forma racional, elas poderiam ser fadas mágicas criando feitiços de amor e paz. Mesmo assim, essa conexão com Serena estava atrapalhando seus julgamentos, e hora ou outra se pegava pensando em matar uns dois caboclos e arrastar para o mar para que as aberrações pudessem saciar sua fome.

Ao fugir não levou nenhum corpo, e procurou ficar escondido o máximo possível para que o Capitão ou a bruxa quando voltassem, não o encontrasse. O oficial havia saído para resolver problemas do governo, já se sabia que alguns ataques tinham sido infrutíferos, e duas tropas inteiras se perderam. A pequena população da cidade de El Flores onde ficava seu regimento, estavam apavorados. Ali também no palácio do governo, os ministros o pressionavam em busca de soluções para aquele infeliz problema. Ele teve que inventar mil histórias para livrar sua responsabilidade, mas agora tinha que dar um jeito, ele tinha que evitar novas arremetidas dos monstros e ainda oferecer segurança ao seus ministros e ao povo simples que viviam naquela costa norte do continente.

O mar estava tranquilo naquela noite, e era uma noite bem escura. Muitas nuvens cobriam o céu, deixando a lua quieta e sem brilho. Buk viu ao longe, se aproximando compassada, com tons cintilantes de verde e rosa, uma calda que surgia e afundava, provocando pequenas ondas no breu. Ouviu de novo dentro de sua cabeça, um uivo fraco e constante. E pensava estar ficando perturbado, já que durante os dois dias que se passaram, fez coisas que não sabia ser capaz de fazer, e não se lembrava de como, apenas agiu. “Estou indo meu servo, vamos acabar com essa história, é chegado o tempo das rainhas tomarem seus lugares.”

Autor: pericles

Uma pessoa apaixonada por artes em todos seus âmbitos, um artista, um professor, um escritor entusiasta desenhando com letras! =)

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