Valores – Primeira Parte

 Para lembrar e aprender a dar valor ao alimento, ao tempo e a vida…

Existem diversas maneiras de se aprender contra o desperdício absurdo proposto pela sociedade de classe média burguesa com seus falantes sem atitudes. Aconteceram tantos episódios e era um tema muito recorrente, por que ele viu muitas pessoas tendo certos jeitos, que não sabia se teria coragem de fazer para ter alimento, e também aprendeu um montão com isso, desde como você realmente pode escolher suas frutas, verduras e legumes, até você saber “o que” daquele aspecto podre pode tirar de bom, e incrível, tira muita coisa! Ele detestava esse papo de sofrer pra aprender ou nos erros aprende mais, blá blá… Acreditava nas escolhas, e por mais que algumas deem merda, ele garantia que quando a gente escolhe se está pensando em um resultado positivo.

Essa história começa tarde da noite já num posto de gasolina desses de beira de estrada. Era bem madrugada acho que umas 2 horas. O lugar era bem grande, um pátio para caminhões esperando os monstros chegarem, e 2 funcionários e mais um “vigia” estavam no local. Quando perguntou se poderia acampar ali para tentar uma carona, o frentista lhe ofereceu um café, e um lugar para guardar a mochila, por que ali havia muito assalto e não dava para saber o que poderia ocorrer, sendo que na esquina era uma boca. De tempos em tempos passava um sujeito bêbado, falava qualquer coisa e ia embora. Foi uma noite relativamente tranquila, o lance era despistar o sono e a fome que vinha chegando tão lenta quanto essa carona confirmou ser. No meio da madrugada não conseguiu dormir, não achava lugar ou posição que o deixassem seguro, mas percebeu algo que achou engraçado, não tinha desconfiança nos frentistas do posto, muito pelo contrário. E além de amizade e palavras consoladoras de um deles que era devoto evangélico, ou pelo menos assim ele deveria achar que com aquela ladainha fazia uma boa ação, volte para jesus e doe sua cruz. Então desencanou da mochila, e como eles disseram mesmo, se esse lugar tem tanto assalto, “que me levem tudo” pensou, “já que não tenho nada comigo mesmo”. Era só a roupa do corpo, e o cara da cachaça veio. Estava muito louco e não controlava a fala. No entanto durante umas 2 horas de conversa, a gentileza dele lhe oferecer a comida pois o que ele queria era dinheiro pra cachaça. A marmita tinha frango assado, arroz e feijão preto (coisa de carioca). Contou da história da mãe, de quando estava preso e que havia entrado para a igreja e iria se converter para tomar um rumo na vida, trabalharia de pedreiro para começar, fazendo as paredes da própria casa.

A humildade vem junto, mas bem juntinho dos valores, aqueles que são morais e sociais, que nos diferenciam dos animais selvagens, e dos pets. Somos humanos por que em teoria sabemos discernir as atitudes boas das ruins.

Não é para pagar de gatão não, mas falamos mais do que agimos e acreditamos estar fazendo algo bom doando 20 reais pelo telefone para alguma associação, ONG ou afim. Ninguém dá as caras, vai lá ver como é e doa a grana para pelo menos, já que somos seres de natureza egoísta, sabermos quem são as pessoas que vão lidar com o “suado” dinheiro de fim de mês. A porrada é forte pra caramba, então você percebe que tem pouquíssimo tempo na real, que sei lá, se chegar aos 85, acho massa, mas não é nem um século, perto do que você lê ou ouve falar, de bilhões e bilhões de tantas bilhões de coisas por ai, e só temos isso de tempo pra curtir a porra toda e tá todo mundo, sei lá, enlouquecido? Chamaram ele de hippie, bandido e pobre… Caleja saca, você sente uma casca crescendo e você tá pronto pra se defender. Veja bem, com tanta gente pirada, o mínimo que se pode fazer num mundo louco como esse nosso é se proteger de alguma forma, não necessariamente pensando que vai ter de usar alguma arma ou algo assim, e torce pra que nunca mesmo, apesar que nunca também é uma medida de tempo, aquele que não entendemos e usamos com tanto desperdício…

Ah cara, no dia seguinte ele estava de pé bem cedo já tentando a carona na beira do acostamento de novo. Havia tomado um outro café, os frentistas, todos eles, cada um que voltava da cozinha, lhe trazia água ou café. Foi uma coisa especial, você pensa no dia a dia, nas correrias, nas negações das pessoas com aquelas que falamos que somos amigos. Complicado isso.

Passou 18 horas tentando carona sem nenhum sucesso. Alguns caminhoneiros que descansavam ali suas máquinas aproximavam para pegar água, e um ou outro puxava uma conversa e ele respondia na tentativa de conseguir alguém que o levasse dali. Apenas dois em dezenas falou que iriam ver alguma coisa. Mas não prometiam nada. Depois de uma quentinha paga pelos frentistas, passou a noite com as provocações do vigia que cheirava aquele pó nojento. E lhe infernizava falando que ele não poderia dormir aqui ou ali, quando um dos frentistas tinha dito até para ir tomar uma chuveirada. Poder de portaria de condomínio burguês, igual aos dados para os governantes. Outro valor, outro desperdício, mais um aprendizado de tempo. Ficar 3 dias sem banho e tomar um mesmo que gelado é mágico. A sensação de prazer iguala ao banho de cachoeira pela alegria que você sente no fundo da pele se limpando.

No outro dia ficou esperando aquele caminhoneiro que havia lhe prometido carona, apenas um no final das contas foi lá falar com ele. E as 10 horas da manhã estava em um trem indo em direção a capital paulista tentando entender as atitudes mesquinhas dos caminhoneiros (passou uns dias com raiva deles) e abençoando os frentistas e loucos de posto de gasolina de estrada.

Autor: pericles

Uma pessoa apaixonada por artes em todos seus âmbitos, um artista, um professor, um escritor entusiasta desenhando com letras! =)

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