Quando a morte visita…

Ele acordou lento. Havia uma expressão de serenidade e um leve sorriso no rosto. Abriu os olhos e no teto o ventilador girava devagar. As cortinas estavam fechadas e ele sabia que era de manhã pela fraca luz do sol que competia tentando romper as grossas camadas de tecido. Piscou e bocejou. Esticou o corpo pela cama se espreguiçando e sentiu um vazio do seu lado direito. Havia uma marca de batom no travesseiro, e as manchas de suor e gozo por todo lençol. De olhos fechados sorriu e pensou em como era uma pessoa de sorte.

Lembrou-se de sussurros em seus ouvidos, palavras “sujas”, palavras que o deixavam excitado. Ela sabia como excitá-lo. Beijos, carícias, mordidas, lambidas, pescoço, mãos, pés, ventre, peito. Sentou-se encostando no travesseiro e demonstrava uma alegria enorme, aquelas borboletas na barriga eram um verdadeiro enxame de felicidade. Deu soquinhos no colchão e teve a suave sensação de sentir o cheiro de um café que acabou de ser feito. Então pulou da cama e foi ao banheiro. O quarto típico de uma família tradicional de classe média da capital com um enorme armário embutido e uma das portas era “falsa”, sendo a passagem para o banheiro. Lavou o rosto e escovou os dentes.  Ao se encarar no espelho, atrás dele na banheira pode ver a silhueta dela, nua acariciando as pernas. Saboreou o cheiro gostoso daquela pele macia, quase percebeu  o toque tenro de sua boca em sua nuca, as memórias vividas de um amor delicioso.

Saiu assoviando e enrolado em uma toalha branca após uma rápida chuveirada. Gritou o nome dela procurando por uma camisa no armário e não ouviu resposta. Após vestir a calça, amarrou os cordões do sapato e ajeitou a gravata na frente do espelho. Mais um sorriso e aquele gesto do tipo “minha vida de sucesso” apontando os indicadores para sua imagem e uma piscadela para finalizar.

Chamou por ela novamente e ouviu barulhos de passos na sala. Pegou sua carteira sobre a cômoda e passou pela sala onde havia outro espelho grande na horizontal dando a sensação de amplitude para a sala apertada pelos sofás, rack da TV e mesa de jantar com 6 cadeiras. Teve a visão daquela linda mulher usando um lindo vestido vermelho, de tecido leve que acentuava suas curvas e notou que não tinha uma marca de calcinha. Com uma larga expressão de satisfação fez um comentário atrevido e viu ela se abaixar e deixar a polpa da bunda à mostra. Ela levantou-se com um sorriso safado na cara, o batom acentuava os lábios e fez um gesto de “chega mais” com o indicador. Ele aproximou-se e a barriga até pulava, não sabia se era ansiedade e pensou que parecia viver um sonho. Abriu os olhos e percebeu como estava com fome e que chegaria atrasado no trabalho. Chamou por ela novamente e ouviu um barulho que parecia ser vidro ou metal vindo da cozinha.

Foi até lá perguntando se aquele cheirinho gostoso significava que o café da manhã estava pronto. O lugar era devidamente decorado com móveis prontos, cada armário e eletrodoméstico em seu devido lugar, combinando em cores e formas e disposição. Um ambiente funcional para a vida agitada das grandes cidades. No entanto não havia ninguém na cozinha. Ele olhou para a máquina de café e não havia café. Não havia uma mesa posta e nem pãezinhos quentinhos. Olhou para o relógio e ainda eram 6:50. Onde ela está? Seus pensamentos ficaram confusos e colocou a mão sobre os olhos fechados, tentando se lembrar dos acontecimentos. Uma nuvem tomou conta de sua vista e um sussurro fino e constante invadiu seus ouvidos atingindo seu cérebro com força.

Desesperou-se e ao tentar andar e acabou por cambalear sentindo as pernas fracas e moles. Apoiou-se na bancada e viu um jornal velho. A data marcava um dia diferente. Ele olhou novamente para o relógio e ele também mostrava o mesmo dia do jornal. O chiado foi ficando mais forte e ele teve que segurar suas orelhas apertando com força para tentar parar aquilo. Onde ela está? Saiu por todo apartamento procurando-a. Chamando-a. Não havia resposta, só lembranças. Mas eram reais. Ele estava em sua casa, ele esteve casado com a mulher da sua vida, viveu com ela por anos, aventuras, viagens, sexo pervertido e sexo com amor. As marcas na cama, o lençol bagunçado, os cheiros vinham forte, ele revirava os olhos, sua testa suava, suas mãos tremiam, e ele não entendia o que estava acontecendo até o zumbido estourar e um flash branco e muito estalado socar sua cabeça.

Ao abrir os olhos ele estava olhando para uma forte luz, e tentou levantar seus braços mas não os sentiu. Tentou falar e não conseguiu. Não enxergava nada além de branco, e não podia nem mesmo ver ou perceber seu próprio corpo. Em sua mente não concordava com os acontecimentos, e pela última vez antes de morrer ele perguntou, onde ela está?

Autor: pericles

Uma pessoa apaixonada por artes em todos seus âmbitos, um artista, um professor, um escritor entusiasta desenhando com letras! =)

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