Sara sentindo Paixão…

As duas chegaram no saguão da rodoviária às 19 horas. Tia Helen vestia uma confortável roupa de lã e usava um chapéu espalhafatoso que não combinava em nada com o cachecol pintado de oncinha. Sara se divertia com ela, gostava do jeito “perua” da tia e com certeza sentiria saudades dela, principalmente dos conselhos sobre “como ser adulta”. A garota usava um jeans surrado e uma camiseta branca por baixo do seu tradicional moleton cinza, carregava uma mochila nas costas, uma mala de rodinhas e uma bolsa para os documentos e seus apetrechos essenciais. Seria a primeira vez que Sara viajaria “sozinha”, já tinha quando pequena visitado parentes no interior, passando férias e feriados nos sítios de algum primo ou tio desses de 4º grau, só que agora não tinha ninguém para responsabilizar-se sobre si, estava por ela mesma, e isso dava um frio danado na barriga. Decidiu ir encontrar com sua melhor amiga dos tempos de escola que agora morava no Rio, e iria passar uma temporada lá para ver o que fazer, afinal com tanto tempo e dinheiro, ela só precisava mesmo tentar ajustar seus sentimentos para que não causasse nenhum problema alheio.

Lembrou-se do terapeuta e da confusão com sua ex-namorada, o ciúmes tinha tomado conta e a impulsividade obrigou o sentimento a atacar. Sara abaixou a cabeça envergonhada. Não precisa ficar assim Sara, disse a Tia acolhendo a menina com um abraço. Todos cometemos erros, você tem muito tempo para pensar no que fez e pedir desculpas sinceras. E quem sabe até, com essa viagem que quer fazer não aprende a se controlar um pouquinho. Deu um sorriso para Sara e ela ainda de cabeça baixa também sorriu. O aviso do ônibus das 19:30 foi anunciado, elas se despediram com um caloroso abraço, Sara ouviu mais alguns conselhos do tipo “tome cuidado”, “não confie em ninguém”,”use seu dinheiro com sabedoria por que senão acaba”, e o mais importante, “vá ser feliz!”

Ela entrou no ônibus e procurou seu assento, depois de ajeitar a mochila no compartimento de cima, sentou-se sozinha e notou que não haviam muitos passageiros naquele ônibus. Talvez fosse assim o caminho todo e teria a poltrona dupla para si. Chegou perto da janela e viu sua tia ajeitando o chapelão balançando as mãos cheias de anéis e pulseiras. Abriu um sorrisão para ela e fez o gesto de coração com as duas mãos mandando um beijo por dentro. O motorista ligou o motor e Sara percebeu o ônibus tremer. As borboletas agitavam em sua barriga a cada momento e ela recostou-se no banco e fechou os olhos. Estava na hora de partir, de mudar, de ter uma coragem que ela estava sendo obrigada a ter, era o que constatava, e do seu lado apareceu um monstro gigantesco, que ela ainda não havia visto nem lembrava de tê-lo sentido tão intenso.

Ele deu uma lambida e babou todo o rosto dela deslocando o capuz do casaco deixando-a molhada. Sara soltou uma gargalhada imensa. Sentiu-se livre, sentiu-se aliviada, sentiu que iria se apaixonar por tudo que estava por vir. Abraçou o gigantesco bicho e ficou muito acolhida pela Paixão. O ônibus ganhou a estrada e ela sonhou durante as próximas 6 horas tentando não idealizar nenhum acontecimento, apenas deixando aquela sensação fazer o tempo ser agradável demais. Ela estava decidida que iria viver mais solta, deixando a vida levar, por que com aquele monstrão do lado, parecia bem mais fácil.

Autor: pericles

Uma pessoa apaixonada por artes em todos seus âmbitos, um artista, um professor, um escritor entusiasta desenhando com letras! =)

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