O Manifesto de Sara

Ninguém sabe o que tem do outro lado, ninguém voltou para contar, alguém acredita 100% em psicografia, por que mesmo os espíritos não nos falam como é… Se é que falam… E dai me pergunto por que escolhem o que escolhem se não gostam de nada disso… Vamos pra onde e quando, só importa se o caminho for bom, tem que ser! Sara acabara de perder os pais, estava desorientada até encontrar sua tia Helen, ao qual muito se afeiçoara. Ela sentiu o celular vibrar, estava no metrô ouvindo música baixinho e olhando para o “nada”. A voz meio abobada, meio abafada, pedindo para ela ir ao Hospital Geral da Cidade. Mudou o percurso e chegou quase uma hora depois por conta do intenso trânsito. E ao vê-la a tia pôs-se a chorar. A menina então foi forçada a virar adulta. Agora era uma mulher aos 17 anos de idade.

Notas sobre tudo ser uma coisa só, assuntos que teoricamente são distintos e as pessoas não visualizam as conexões, e só depois de mais velhas, no limite do que chamamos de ter vivido, se percebe isso. Leio sobre pessoas idosas falarem em seus leitos de morte que deveriam ter vivido mais, no sentido de fazerem mais coisas que gostavam, de ficar mais com as pessoas que lhes faziam bem e vice-versa, sobre experimentar diferentes coisas por que depois, esse tempo que é ínfimo e passa super rápido, não se recupera, estamos indo sempre para “frente”, olhamos para frente, e esse tempo do agora, se torna ansiedade, doenças modernas pela falta de controle que temos, por não entender que uma hora vai acabar, essa passagem se chama assim por isso, por que simples, passa! Nesse momento em que fritava um ovo para comer com um pão já murcho, 3 dias após se sentir a pessoa mais sozinha do planeta, Sara também constatou-se minúscula, que aquele lugar era grande demais só para ela. Olhou para o sofá da sala onde curiosamente não havia uma TV, sem os pais falando como loucos, às vezes brigando, às vezes rindo ou conversando agitados enquanto tomavam um vinho, ela lembrou e lembrou e as lágrimas desceram quietinhas.

O quanto é difícil você querer separar seus sentimentos, suas personalidades, suas próprias expressões, daquilo que você acredita que você é… E no que você acredita… No entanto ela teve culhão, assustou-se em reconhecer seus muitos preconceitos, julgou-se antes de ir para o jogo da vida rotineira de Cidade Grande, entretanto não demonstrou sinais de fraqueza, não abaixou a guarda, decidiu se emancipar. Tia Helen não era uma pessoa muito preocupada, muito pelo contrário, vivia de bem com a vida e passava pelas adversidades com um jogo de cintura e um sorriso que a deixavam uma criatura linda. Você tem que entender a responsabilidade que tem agora Sara. Segue suas escolhas mas lembre que cada uma delas terá duas opções, no mínimo. Com tanta coisa pra se definir, sugiro que você tente sempre pensar com carinho para solucionar seus problemas. Apesar de fácil de ouvir, dominar os sentimentos nunca esteve nos planos de Sara. Ela gostava de emoções fortes, pediu de aniversário de 15 anos um salto de para-quedas e conseguiu convencer o pai de ir junto.

Por que não se pode viver só de emoções, por que demonstrar sentimentos é algo tão complicado… Queremos que robôs sintam, pensem e entendam por si próprios e nos gabamos de criar a inteligência artificial, mas não queremos mostrar nosso choro, nosso carinho, nosso desejo, viver sem medos, sem pudores, sem julgamentos… Por que não sei mais de amanhã, e ninguém me comprova que as coisas não são únicas, suas origens, nossas origens, de um grão de areia a uma barra de metal criada por seres humanos, que chamamos de não orgânico, de científico… Tudo está ligado, veio do mesmo lugar, junto com a prepotência e a hipocrisia. E voltará para o mesmo lugar até que se prove o contrário. E já que ninguém voltou pra falar, oi aqui do outro lado é bem legal… Do outro lado? Que lado, que direção, que confusão de sentimentos!!! Sara se aconselhou mais uma vez com sua tia Helen, e depois de muito conversarem ela chegou a duas conclusões. Primeiro venderia a casa e iria viajar. Segundo, para os preparativos iria procurar uma terapia, algo que pudesse desopilar sua cabeça cheia de ideias e pensamentos estranhos desde o incidente, com uma pessoa totalmente alheia a sua existência até então.

Uma vez a noite, pensou ter sentido uma presença em seu quarto. Ela havia trancado o quarto dos pais, depois de colocar todos os objetos pessoais em caixas, deixando apenas a mobília no lugar, e guardou algumas fotografias. Passara um mês, recebeu visitas de sua tia e algumas amigas do colégio. Iria sair pela primeira vez de casa por decisão própria. Mesmo que seja forçada, mesmo que eu só queira me enfiar debaixo das cobertas e me sufocar, preciso entender o que está acontecendo comigo. Nesses tempos dois monstros tomavam ou tentavam tomar forma de uma maneira mais constante para Sara. Tristeza e Medo eram feios, disformes, sinistros. Ela não conseguia entender suas visões, achava que estava delirando, porém conseguia sentir a presença como se eles fossem… pessoas. Aos 14 anos gostava de um garoto da escola. Ric era o apelido e ele já tinha aquele jeito canastrão de se vangloriar-se para as meninas. Sara e Ric estudaram na mesma sala e faziam aulas de laboratório de ciências juntos. Nunca soube explicar o ocorrido para sua mãe quando essa foi buscá-la após uma ligação do diretor, e teve que assinar um documento com uma suspensão de 3 dias para que sua filha pensasse no que havia feito e tentasse se controlar em momentos assim. O ciúmes foi tão intenso que se manifestou, ela não se lembra direito, contudo ela viu um tigre azul gigantesco ficar apoiado nas patas traseiras e soltar um tapão no rosto daquela menina nojenta que não me lembro o nome. Sua mãe procurou um psicólogo, mas não durou muito, ao ver que a mãe seguia caminho em seu carro após deixá-la na porta do consultório, Sara não entrava no prédio, ia para o outro lado da rua e seguia caminho até uma praça, onde deitada na grama chupava algumas balas e contava nuvens.

Autor: pericles

Uma pessoa apaixonada por artes em todos seus âmbitos, um artista, um professor, um escritor entusiasta desenhando com letras! =)

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